Zé Caozinho

Olha o Sorveteiro.

In Os Artigos Nefastos on E5728pm02200957 UTC02 at 13:16

Vinha rua-afora-gaita-à-mão o sorveteiro. Aquele sorriso que só os ambulantes têm, ou que só as crianças veem. Porque os pais só ficam aliviados se o ambulante traz castanhas-do-pará, mas esses sorveteiros com jeito de carismáticos são um inferno, um prejuízo. Não obstante, pelo sim, pelo não, rua-afora-gaita-à-mão, vinha o sorveteiro no seu carrinho de cinco rodas, pois contava também a roda de pimpolhos intermitentes em volta do seu business isolado termicamente. O caso é que o nosso sucesso de vendas, o rei da tardinha, guardava lá no fundo do seu próprio palito um segredo congelado. Um segredo que fazia o sorveteiro ir manco, apesar de ele saber muito bem disfarçá-lo. Só que com as histórias inventadas, não  há mistério que se sustente. Não há alma que não se derreta diante de uma prosódia aquecida…

- Ah, conta sorveteiro! Conta! Conta! Conta! Conta!

- Eu odeio crianças.

Aqui o conto, estarrecido, não sabe o que dizer. O que há pra se dizer de um sorveteiro de cara simpática que odeia crianças?

- Que odeia muito, que quer enfiar o sorvete no rabo delas. E deixa que eu conto. Vendo sorvete desde os oito. Vendo sorvete porque amo sorvete. Porque congela mesmo o espírito, se tomado rápido e a mordidas no caso de picolé. E desde os oito que só vendo para tomá-los. A conta perfeita é vender metade. Cria-se lastro pra chupar outra metade. O caso é que as crianças nunca cessam. Ninguém mandou ser bom fazê-las, mas isso eu nem sei. Só sei que minha quinta roda do carrinho não se desfaz enquanto ainda houver carrinho. As crianças, malditos diabos vestindo azuis celetes e amarelos vaga-lumes, levam tudo, os meus sonhos, a minha alma resfriada, meus palitos vertebrais. Saqueiam minha metade. Me dão dinhero, não me dão sorvete. E eu, picolé de banana com goiaba, fico a lamber ventos e chorar suco de limão, anunciando meu vazio às brisas tolas com uma gaita mentirosa, malfeitora e moribunda.

Por isso, quando os leitores desse artigo escutam a gaita do sorveteiro, vão correndo tomar um chocolate quente, temendo o frio solitário que abate um coração obssessivo.

  1. pobre sorveteiro! pobres sarneys! pobre gross! pobres almas ricas e desoladas que habitam esta fonte de desacontecimentos!

  2. Sorveteiro que odeia crianças???? faz sentido… estes pestes… Mas meio carrinho???? hahahaha
    O pai disse que aqui que também tem um poema de sorveteiro. Mas não é profundo. É profora… Hahaha. Vou fazer um blog pro pai.
    Bjo (vou limpar o nariz da mãe)