Procurava já há tempos por um par que lhe fizesse feliz. que tivesse as lentes bem escuras, quase opacas. que praticamente cobrisse as sobrancelhas, lhe escondesse as pálpebras e as olheiras. algo que lhe deixasse com a aparência de um diabo, como só os músicos de blues e de jazz conseguem. que evocasse aquela cegueira que vê além, que fizesse ver além, que escurecesse o mundo ensolarado de maneira feliz, que lhe desse o aleph pra tocar de olhos fechados, não saber mais se os olhos estão abertos ou fechados, porque o mundo é pura música e ele só queria andar pelas esquinas das pautas improvisadas. peregrinava de loja em loja, portas velhas, quebradas, tiozinhos colecionadores vendendo gato por lebre, barracas de rua, promessas de assaltantes, “descolo pra você na semana que vem… já até sei quem tem.” o bandido que trouxe, um modelo que ele não quis, teve que apanhar, não foi assaltado porque também não carregava nada nos bolsos. daí apanhou ainda mais. já fazia tempos que estava assim, procurando o par da sua vida, caminhos estreitos, boatos no centro, sem nunca encontrá-lo. seu fôlego acabando, sua chama convalescendo, seus olhos já quase cerrados…
numa noite, num bairro de clubes clandestinos e bares de porão que ele conhecia como a palma da mão, notou uma rua diferente, que estranhamente nunca tinha reparado, mas era de se entender, porque era estreita, escura, e ficava entre dois enormes cestos de lixo. não se acanhou, deu o primeiro passo, abandonou-se na escuridão, no início tateando as paredes ásperas, sujas, um cheiro de mijo. depois, foi melhorando, já dava passos seguros e guiava-se pelo nariz quando viu aquele pirilampo lá no fim, uma luzinha azul celeste, quem sabe uma lâmpada… pensou em ficar com raiva da luz haja visto que quebrou seu manto epifânico de breu, todavia, ao contrário, achou-a tão linda, tão singela e norteadora, pensou estar num sonho ou ter morrido, deixou-se levar…
o pirilampo foi crescendo, se agigantando, já dava pra ver que era mesmo uma lâmpada, um filete de tungstênio azul, como ele nunca tinha visto, uma lâmpada incandescente só que fria. achou que ia ter um arrepio, não obstante acomediu-lhe somente uma certeza genérica, certeza da alma, daquelas que não se sabe de quê. via-se agora a pobre barraca, o homenzinho atarracado atrás dela, um enorme bigode, lentes bem polidas e de súbito, na chapa, sublimando a esperança daquelas pupilas gastas e cansadas, aparece sobre a bancada o seu par, um exemplar perfeito, ótimo estado, apenas com as marcas do tempo que dão o charme histórico. iria finalmente vagar pela própria penumbra, tocar jazz com o demônio, ver pelo dentro… – quanto custa?/tanto!/que? tanto é muito, é fora da realidade!/tá, então tanto./também não dá, tem que ser menos/menos não dá/ mas mais eu não tenho/ então não leva/ não, o senhor não está me entendendo, eu preciso levar/ problema seu/ mas é o par da minha vida, eu procurei muito tempo até achá-lo, essa banca fica num lugar inalcançável, por favor, faça um desconto!/ ok, tudo bem, mas é a última oferta. é isso./ não por favor não! isso ainda é muito, só tenho menos/ olha, por menos não dá pra fazer, me desculpe, pode ir-se/ olha, o senhor não está me entendendo, eu não vou embora sem ele, eu preciso dele, o mundo é muito claro, minhas vistas doloridas, eu não vou embora, eu posso ficar aqui azucrinando o senhor até o senhor se render, até o senhor resolver me presentear com ele só pra ter sossego…/ você não imagina como eu posso ser paciente/ eu duvido, mas não quero enlouquecê-lo. o que eu preciso fazer para o senhor vender pra mim?/ não sei, acho que não há nada que você tenha que eu queira./ deve existir alguma coisa… mmm… já sei! eu lhe escrevo um conto! eu lhe escrevo um conto e mais o meu menos em dinheiro e o par é meu./ eu não gosto de ler/ mas eu tenho certeza que o senhor vai gostar/ não vou não/ então aguarde.
foi quando ele pegou lápis e caneta e começou a rabiscar esse conto que lês, e começou a se demorar, avançando e apagando, o par em jogo, na bancada, acenando pra ele. o bigodudo já mais interessado, imaginando o que escrevia o rapaz, esperava uma homenagem a si, uma ode à sua bondade, que ele receberia com frieza, não consideraria como pagamento mas guardaria a folha, e penduraria na barraca assim que aquele pulha saísse.
o conto demorava a sair, passavam os cheiros de comida e o dono da barraca ia se acostumando à presença daquele corpo, já desejava que acabasse logo o conto, não precisava ser tão detalhista assim. de paciência gasta, foi olhando à volta, dando caminhadinhas por perto da sua vendinha, já ia fazer um intervalo e deixar aquele moço chato de olho nas coisas. aí foi a falha trágica, mal deu as costas e trouxe pra sua frente o rabo do olhar, escafedeu-se o pilantra, deixando atrás de si a fumaça vazia daqueles que fogem, fumaça tão densa quanto à encontrada no lugar onde repousava o par esplêndido. desfalque de otário. bigode com cara de bunda.
agora, com seu par assombrando-lhe os rosto, vaga ele sem lume, pelos becos lotados de latas de ferro, pelas escalas eróticas dos trompetes, pelas, pelas peles exasperadas de paixão. pelos vácuos tristes, heranças do amor.
_ sou o próprio tempo travestindo-se de música.