dedicado ao Broto.
Numa longinquidade possível, mesmo que muito remota, vive Gulliver VIII, descendente puro da curiosa relação entre o virtuoso Capitão Gulliver e um bibelô liliputiano. Digamos mais. Ele era o primeiro-ministro. A terra longínqua, Tucupank. Gulliver VIII, homem bom, de ares bufanescos, era devoto do Deus-da-Pele-Azul, entidade muito requisitada para causas transcendentais e temperos exóticos. Os dois costumavam se encontrar na madrugada, em geral entre escuras nuvens ou num formigueiro, onde conversavam por horas a fio. Teciam sobre as coisas do Olimpo e dos Planetas. Faziam brindes a Saturno e bebiam Vênus. Esbaldavam-se, o Deus-da-Pele-Azul e o Gulliver VIII. Todavia lembravam, apesar de embriagados e exauridos, da manhã iminente, quando deviam, sob a pena de acontecer o desconhecido, rapidamente retornar aos seus mundos: o Deus-da-Pele-Azul ascendia com 300 asas ao Olimpo e Gulliver VIII volvia à sua amada Tucupank em seu moicanã, espécie de Pégasus tukupankiano, salvo suas 3 patas, banhadas na prata.
Era esse mesmo o moicanã que Gulliver VIII conduzia pelas pradarias de seu solo quando viu um enorme túnel cravado com muito bela arquitetura no pé de uma montanha, a qual ele tinha certeza já ter visto centenas de vezes, mas sem túnel. Determinado, galopovoou 4 milhas em 4 segundos, chegando por fim à entrada do grande portal decorado com motivos rupestres. Lá, o recorrente moicanã, cujo nome era Tito, refugou decidido. Gulliver VIII persistiu, fincando suas rosetas de 42 pontas na virilha da perna de trás do preguiçoso animal. De nada adiantou. Tito esperneava, relinchava, chorava, cantava, mas não entrava no túnel. O primeiro pensamento do descaronado herói , desmunido da velocidade do seu moicanã, foi dar meia volta. Depois lhe ocorreu que não há caminho na vida que não leve a outro lugar, e resolveu entrar passo-a-passo, rumando para o interior do túnel. As paredes, que já eram belas lá na entrada, exibiam espetáculos de irrealidade, criando espirais com cores nunca dantes vista, trechos desfocados, quadros de Renoir e Goya, côncavos e convexos de gradação incauculável. A cada sonho, menos luz. A cada forma, menos espaço. Gulliver VIII parecia já não caber no túnel, por isso lembrou que há muito não visitava sua mãe em Lilipute, mas logo o pensamento parou. Gélidas veias. É ininteligível a sensação simultânea de tanto frio e tanto calor . Além do silêncio. Não havia jamais presenciado um silêncio tão puro, tão perfeito. Súbito, um gemido corta o gelo e o vapor, soprando de novo vida no tímpano de Gulliver VIII. A escuridão bate em retirada e de repente tudo fica sépia. Tudo menos o proferidor do gemido, destacando-se do resto do mundo inteiro com seu azul único. O Deus-da-Pele-Azul chorava copiosamente.
Tudo ficou, de um milênio pro outro, claro para Gulliver VIII. Inclinou-se em lótus e sussurrou com toda honestidade ao Deus-da-Pele-Azul. Eu te amo. No milésimo seguinte, todas as cores, inclusive as que vemos apenas dormindo, brotaram do ventre azul-celeste, e ali foi dada à Gulliver VIII a visão de todas as maravilhas intocadas por qualquer espécie material. Testemunhou uma beleza descomunal, jamais atingida por criatura feita de átomos. Num momento quedou-se desesperado, certo de que nem mesmo os trilhos da eternidade seriam capazes de achar palavra ou imagem à altura de tal obra. Tanta massa sublime foi se comprimindo, até mudar de estado. Virou vapor. Depois líquido. Aí sólido e em seguida os três ao mesmo tempo. Complexidade mestra. Forjou-se naquele túnel a criatura mais maravilhosa que já pôde existir nos mundos conhecidos pela geografia dos nossos deuses. Gulliver VIII, refazendo-se em amor a cada respiração, comemorava extasiado seu presente. Beijava-lhe as pessegosas maçãs do rosto e as cerejas de seus lábios, incrédulo do sabor melódico daquela língua. Já não havia mais o Deus-da-Pele-Azul, diluído no frasco do feromônio dela. Ele lhe mostrou o dia. Ela lhe deu a noite. Ainda bailam ,sol e lua, embevecidos do fulgor flamejante de suas almas fundidas.