@joze_caozinho

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À língua-melodia

Em Os Artigos Nefastos, E2331am03200923 UTC03 às 02:40

dedicado ao Broto.

Numa longinquidade possível, mesmo que muito remota, vive Gulliver VIII, descendente puro da curiosa relação entre o virtuoso Capitão Gulliver e um bibelô liliputiano. Digamos mais. Ele era o primeiro-ministro. A terra longínqua, Tucupank. Gulliver VIII, homem bom, de ares bufanescos, era devoto do Deus-da-Pele-Azul, entidade muito requisitada para causas transcendentais e temperos exóticos. Os dois costumavam se encontrar na madrugada, em geral entre escuras nuvens ou num formigueiro, onde conversavam por horas a fio. Teciam sobre as coisas do Olimpo e dos Planetas. Faziam brindes a Saturno e bebiam Vênus. Esbaldavam-se, o Deus-da-Pele-Azul e o Gulliver VIII. Todavia lembravam, apesar de embriagados e exauridos, da manhã iminente, quando deviam, sob a pena de acontecer o desconhecido, rapidamente retornar aos seus mundos: o Deus-da-Pele-Azul ascendia com 300 asas ao Olimpo e Gulliver VIII volvia à sua amada Tucupank em seu moicanã, espécie de Pégasus tukupankiano, salvo suas 3 patas, banhadas na prata.

Era esse mesmo o moicanã que Gulliver VIII conduzia pelas pradarias de seu solo quando viu um enorme túnel cravado com muito bela arquitetura no pé de uma montanha, a qual  ele tinha certeza já ter visto centenas de vezes, mas sem túnel. Determinado, galopovoou 4 milhas em 4 segundos, chegando por fim à entrada do grande portal decorado com motivos rupestres. Lá, o recorrente moicanã, cujo nome era Tito, refugou decidido. Gulliver VIII persistiu, fincando suas rosetas de 42 pontas na virilha da perna de trás do preguiçoso animal. De nada adiantou. Tito esperneava, relinchava, chorava, cantava, mas não entrava no túnel. O primeiro pensamento do descaronado herói , desmunido da velocidade do seu moicanã, foi dar meia volta. Depois  lhe ocorreu que não há caminho na vida que não leve a outro lugar, e resolveu entrar passo-a-passo, rumando para o interior do túnel. As paredes, que já eram belas lá na entrada, exibiam espetáculos de irrealidade, criando espirais com cores nunca dantes vista, trechos desfocados, quadros de Renoir e Goya, côncavos e convexos de gradação incauculável. A cada sonho, menos luz. A cada forma, menos espaço. Gulliver VIII parecia já não caber no túnel, por isso lembrou que há muito não visitava sua mãe em Lilipute, mas logo o pensamento parou. Gélidas veias. É ininteligível a sensação simultânea de tanto frio e tanto calor . Além do silêncio. Não havia jamais presenciado um silêncio tão puro, tão perfeito. Súbito, um gemido corta o gelo e o vapor, soprando de novo vida no tímpano de Gulliver VIII. A escuridão bate em retirada e de repente tudo fica sépia. Tudo menos o proferidor do gemido, destacando-se do resto do mundo inteiro com seu azul único. O Deus-da-Pele-Azul chorava copiosamente.

Tudo ficou, de um milênio pro outro, claro para Gulliver VIII. Inclinou-se em lótus e sussurrou com toda honestidade ao Deus-da-Pele-Azul. Eu te amo. No milésimo seguinte, todas as cores, inclusive as que vemos apenas dormindo, brotaram do ventre azul-celeste, e ali foi dada à Gulliver VIII a visão de todas as maravilhas intocadas por qualquer espécie material. Testemunhou uma beleza descomunal, jamais atingida por criatura feita de átomos. Num momento quedou-se desesperado, certo de que nem mesmo os trilhos da eternidade seriam capazes de achar palavra ou imagem à altura de tal obra. Tanta massa sublime foi se comprimindo, até mudar de estado. Virou vapor. Depois líquido. Aí sólido e em seguida os três ao mesmo tempo. Complexidade mestra.  Forjou-se naquele túnel a criatura mais maravilhosa que já pôde existir nos mundos conhecidos pela geografia dos nossos deuses. Gulliver VIII, refazendo-se em amor a cada respiração, comemorava extasiado seu presente. Beijava-lhe as pessegosas maçãs do rosto e as cerejas de seus lábios, incrédulo do sabor melódico daquela língua. Já não havia mais o Deus-da-Pele-Azul, diluído no frasco do feromônio dela. Ele lhe mostrou o dia. Ela lhe deu a noite. Ainda bailam ,sol e lua, embevecidos do fulgor flamejante de suas almas fundidas.

MENTECAPTOS.

Em Os Artigos Nefastos, E2131am03200921 UTC03 às 03:52

Esses mentecaptos enchem! Acumulam-se vertical e horizontalmente por corredores empilhados e quase infinitos. Suam juntos. Fedem coletivamente. Riem, apesar de variarem o trecho, com seus sorrisos banguelas. Pior é quando rastejam sobre suas próprias gosmas, mix de vômito com anfetamina e testosterona. Camisas brancas por aqui não se vê. Estão todas encardidas, principalmente nos colarinhos e embaixo dessas axilas ricas em dermatóides. É que as mulheres deles são umas porcas, não sabem lavar sequer sovaco de camisa. Escarram no feijão, as cretinas. Os filhos, então, uma gangue de capetas-generais. Estupram as professoras e mijam nos monumentos. Ainda tem os cachorros e as pulgas. Muitas malditas pulgas. Infestam as cortinas, os tapetes, as toalhas, o berço do neném. Os corredores precisam ser lavados com cândida na razão de 3 pra 1 com a água. Os germes, também acumulados vertical e horizontalmente, alojam-se carnívoros atrás das orelhas mentecaptas, o que faz os próprios germes conotarem-se mentecaptos. As esposas dos germes pelo menos ficam com eles nos alojamentos. É que não precisam ficar em casa pra lavar camisas ou escarrar no feijão. Germes não usam camisas brancas. São marrons. Então podem ficar sujas que não tem problema. E o feijão eles comem no suor do hospitaleiro. Mas não pense em absolver essas criaturinhas nojentas. Não teriam elas também sua própria craca atrás da orelha? E assim nano-germe adentro? Uma faísca me contou que elétrons são piolhos dos prótons. Coceiras de uma alma neutra e positiva. Só que os átomos, corredores quase infinitos, alojam elétrons acumulados moléculas a fio. Eles se movem, horizontal e vertical simultaneamente. Ardorosamente e por vezes em choque, mentecapta nossas sinapses espiraladas, nascidas na festa da matéria inerte.

Olha o Sorveteiro.

Em Os Artigos Nefastos, E5728pm02200957 UTC02 às 13:16

Vinha rua-afora-gaita-à-mão o sorveteiro. Aquele sorriso que só os ambulantes têm, ou que só as crianças veem. Porque os pais só ficam aliviados se o ambulante traz castanhas-do-pará, mas esses sorveteiros com jeito de carismáticos são um inferno, um prejuízo. Não obstante, pelo sim, pelo não, rua-afora-gaita-à-mão, vinha o sorveteiro no seu carrinho de cinco rodas, pois contava também a roda de pimpolhos intermitentes em volta do seu business isolado termicamente. O caso é que o nosso sucesso de vendas, o rei da tardinha, guardava lá no fundo do seu próprio palito um segredo congelado. Um segredo que fazia o sorveteiro ir manco, apesar de ele saber muito bem disfarçá-lo. Só que com as histórias inventadas, não  há mistério que se sustente. Não há alma que não se derreta diante de uma prosódia aquecida…

- Ah, conta sorveteiro! Conta! Conta! Conta! Conta!

- Eu odeio crianças.

Aqui o conto, estarrecido, não sabe o que dizer. O que há pra se dizer de um sorveteiro de cara simpática que odeia crianças?

- Que odeia muito, que quer enfiar o sorvete no rabo delas. E deixa que eu conto. Vendo sorvete desde os oito. Vendo sorvete porque amo sorvete. Porque congela mesmo o espírito, se tomado rápido e a mordidas no caso de picolé. E desde os oito que só vendo para tomá-los. A conta perfeita é vender metade. Cria-se lastro pra chupar outra metade. O caso é que as crianças nunca cessam. Ninguém mandou ser bom fazê-las, mas isso eu nem sei. Só sei que minha quinta roda do carrinho não se desfaz enquanto ainda houver carrinho. As crianças, malditos diabos vestindo azuis celetes e amarelos vaga-lumes, levam tudo, os meus sonhos, a minha alma resfriada, meus palitos vertebrais. Saqueiam minha metade. Me dão dinhero, não me dão sorvete. E eu, picolé de banana com goiaba, fico a lamber ventos e chorar suco de limão, anunciando meu vazio às brisas tolas com uma gaita mentirosa, malfeitora e moribunda.

Por isso, quando os leitores desse artigo escutam a gaita do sorveteiro, vão correndo tomar um chocolate quente, temendo o frio solitário que abate um coração obssessivo.

A 1ª história de GROSS.

Em Os Artigos Nefastos, E3228pm02200932 UTC02 às 22:36

Bom dia.

Certa vez, Francis Gross, corretíssimo jornalista dos idos de 10, recém-saído da corregedoria municipal após flagrar o chefe transando com o faxineiro, viu-se intimado a escrever seu primeiro artigo para o Diário de Cão. O chefe, de bigodes dourados e salafrários, submeteu-o a essa prova única: tranca-o num gabinete e pede-lhe o melhor artigo já escrito nos registros da hitória, para dar-lhe os céus, sem isso ser metáfora. O desempregado Gross, de geladeira vazia e roupa encardida, topou, confiante. Tinha como tempo uma volta da Terra. Burilou tema qualquer. As cicatrizes confeccionadas nos ritos de iniciação tribais. Os místérios da escalação da seleção carioca de canoagem. Sífilis. Tamborilando o lápis na mesa, comia os restos sujos da borracha então trabalhadeira assentada na extremidade oposta do mesmo lápis. Gross fica pendular que nem sua folha, indecisa entre o grafite e o látex. Francis mira agora decidido a primeira linha. Seu lápis míssel, decidido, escreve “Platão ligou para…” e para. Mais uma vitória LATEXANA. Se encolhe. Agora é franzino e pálido. Antes era alto e peitudo. Agora está murcho. É uma bexiga d’água sem água. O sol cai convincente. O franzino pensa em cochilar. Desistir jamais. Busca a linha perfeita, o parágrafo sagrado. Sentindo a sopa passar embaixo da janela para quem tem ouro comê-la. Seus intestinos berram. Parece que vão surgir demônios. Surgem. Como estacas, ele enterra as canetas-tinteiro nos demônios. Pinta-os como neném, estiliza suas vulgaridades. Escreve palavras cabeludas nos demônios, e outras piores nos serafins. É o assassino mais leve do mundo. Rasga as ficções enquanto sorri. Nunca se viu alguém voar com tanta destreza. Decolou mini ao interior do cinzeiro e tossiu suas preocupações, viroses e sinapses. Foi ao fulcro de Bé, ilha lendária do inconsciente, da qual não voltou ninguém vivo. Lá os carneiros jogavam-se de precipícios, enquanto os Ipês escravizavam abelhas a fim de fecundá-las. Os Ipês gemiam e Gross gemia junto. Muitos rindo com os ouvidos na porta, do lado de fora. Os risos engoliram Gross. A ponta dos dedos gotejando suor. Uma presilha do suspensório deixara marcas em sua testa. As mãos eram que choravam. Os olhos não. Estavam cegos. Ou as lágrimas escorriam para dentro. Deve ter sido isso porque o Francis foi se enchendo de água, não se sabe se mijo. Nadou, nadou, nadou e quando saiu da água levou um de direita do nascente, esgotando suas apulhetas. Cruzou as pernas. Bebeu um pouco do cantil de um serafim desmaiado até então. Este, vendo seu líquido roubado pelo sedento Gross, ofendeu-se e foi embora. Com ele todas as tintas e todo o gabinete. Ficou um deserto enorme. Não de areia. De brancura. Pra todos os lados, branco. O viado do serafim levou as formas, os ângulos. Levou as dimensões. Francis Gross olhou para os pés e quase teve um infarto ao constatar sua abominável bidimensionalidade. Bidimensional do meio do nada. Estava com muito medo de perder mais uma dimensão e vagar unidimensional pelo perturbante branco-vazio. Ao longe, do branco longínquo, desfocando-se no infinito, uma mancha escura vai ganhando volume diante dos olhos de Gross. Tá chegando. Uma mão gigante. Cada vez maior. O anel não mente. É a mão do chefe. Ele está muito bravo, com a bidimensionalidade de Gross e com o fato de ser ele mesmo o próprio artigo. Então, um artigo reprovado. Não é o melhor artigo já escrito. O chefe fecha a mão e destrói o branco, sobre o qual se sustentava o mundo. O mundo desaba. Francis cola o paletó no mural que agora é e vai pra casa jantar com a mulher, que o ama. Não tinha carne.

Boa noite.

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