(Esse discurso contém, mesmo que não explicitamente, homenagens aos pais, companheiros, funcionários, mestres, aos pero-no-mucho e, sobretudo, aos antes-fetos-paridos-nenéns colegas que ora abandonam os seios da mãe USP.)
Simplesmente Boa Noite.
E Prometeu, mito tão adorado, atrevido e bravo, desceu do carvalho ereto do Olimpo, fogo em punho, flamejante a alma. Zeus, como um pai chocado, naturalmente desesperou-se com o roubo e acorrentou Prometeu anos infinitos, dizem que uns 30 mil. Todavia, nos pergunte por quê. Por que Prometeu, mito tão adorado, atrevido e “bravo”, surrupiou o fogo, propriedade exclusiva dos deuses? O que queria esse imoral com a preciosa tocha? Nós respondemos: uma imoralidade ainda maior: homo sapiens. Sim! Prometeu nos moldou a fogo.
A historinha que acabamos de ouvir conta a saga simbólica de Prometeu, responsável pela criação de todos os animais e do homem. O fogo, em seu poder e audácia, quer dizer conhecimento, esse sim flamejante dessas almas humanas. O calor das palavras, o fervor da poesia, a temperatura fatal da bomba atômica, o fondue de chocolate, acalentador das noites mais românticas. O isqueiro, invenção maravilhosa, resumindo o Fiat Lux, primeiro ato de Deus na criação do mundo, a um movimento dos nossos polegares opositores. Que macacos espertos… E levantá-lo no show de uma banda… Está então inaugurada para essa espécie a curiosidade, as experiências absurdas, a fase oral do bebê, a Dolly e as escolas, os institutos, os colegiais, as colegiais, a Usp, a Eca e nós. E o fogo. A Academia, pira olímpica oficializada, é também cálice farto para nossa sede de ardor. Dá-se, então, a pirofagia. Comemos uma lamparina ali, beliscamos uma brasa acolá… Chamas com manteiga, por favor! Vez em outra uma fogueira enorme! Banquete intelectual! Sócrates daqui, Kant de lá… Os fogos de artifício vão dançando dentro da gente. O corpo em incêndio! Nero atacou suas convicções! Fogo nele, inquisição! Aula avante, roda falante.
Anos a esmo, ou quase, e fomos nos educando Phoenix, ave de fogo eterna, que sempre renasce das próprias cinzas. E agora, nova pergunta: qual é teu fogo? O que te deixa em brasa? Busca fora e dentro. É aí que está teu alimento, tua sorte, tua felicidade. Aí está teu Prometeu.
Crianças boas, crianças mais,
Nesse momento, todos entram pros anais.
Queima logo esse portfólio.
Rasga esse embrulho.
Como todos intuo:
vai estrada longa,
vai sem ter recuo.
Caminha agora brasa afora
Ria muito, se muito precisar, chora.
Se te barrarem, vai à forra
O dinheiro suado, vê se não torra.
Caia na real, que tudo caia por terra
Caso nada tenha sobrado, esperneia e berra.
Só não seja atroz
Mastiga bem o teu arroz
E não esquece do feijão,
do pão,
do pai,
da mãe,
do irmão.
Reparte teu fogo!
Se não dividires o perderás logo!
Reparte tua chama!
Entra brincando no jogo
Reparte tua vida!
Encara tua saída
Agora não tem mais múltipla escolha
Disserta teu destino, arquiteta tua própria ficção
Que a realidade não existe, é mera ilusão.
Boa noite.
(discurso do orador André Araújo – nº USP 4902494 – Artes Cênicas – Direção Teatral – andrearaujobrasil@hotmail.com)