@joze_caozinho

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A 1ª história de GROSS.

Em Os Artigos Nefastos, E3228pm02200932 UTC02 às 22:36

Bom dia.

Certa vez, Francis Gross, corretíssimo jornalista dos idos de 10, recém-saído da corregedoria municipal após flagrar o chefe transando com o faxineiro, viu-se intimado a escrever seu primeiro artigo para o Diário de Cão. O chefe, de bigodes dourados e salafrários, submeteu-o a essa prova única: tranca-o num gabinete e pede-lhe o melhor artigo já escrito nos registros da hitória, para dar-lhe os céus, sem isso ser metáfora. O desempregado Gross, de geladeira vazia e roupa encardida, topou, confiante. Tinha como tempo uma volta da Terra. Burilou tema qualquer. As cicatrizes confeccionadas nos ritos de iniciação tribais. Os místérios da escalação da seleção carioca de canoagem. Sífilis. Tamborilando o lápis na mesa, comia os restos sujos da borracha então trabalhadeira assentada na extremidade oposta do mesmo lápis. Gross fica pendular que nem sua folha, indecisa entre o grafite e o látex. Francis mira agora decidido a primeira linha. Seu lápis míssel, decidido, escreve “Platão ligou para…” e para. Mais uma vitória LATEXANA. Se encolhe. Agora é franzino e pálido. Antes era alto e peitudo. Agora está murcho. É uma bexiga d’água sem água. O sol cai convincente. O franzino pensa em cochilar. Desistir jamais. Busca a linha perfeita, o parágrafo sagrado. Sentindo a sopa passar embaixo da janela para quem tem ouro comê-la. Seus intestinos berram. Parece que vão surgir demônios. Surgem. Como estacas, ele enterra as canetas-tinteiro nos demônios. Pinta-os como neném, estiliza suas vulgaridades. Escreve palavras cabeludas nos demônios, e outras piores nos serafins. É o assassino mais leve do mundo. Rasga as ficções enquanto sorri. Nunca se viu alguém voar com tanta destreza. Decolou mini ao interior do cinzeiro e tossiu suas preocupações, viroses e sinapses. Foi ao fulcro de Bé, ilha lendária do inconsciente, da qual não voltou ninguém vivo. Lá os carneiros jogavam-se de precipícios, enquanto os Ipês escravizavam abelhas a fim de fecundá-las. Os Ipês gemiam e Gross gemia junto. Muitos rindo com os ouvidos na porta, do lado de fora. Os risos engoliram Gross. A ponta dos dedos gotejando suor. Uma presilha do suspensório deixara marcas em sua testa. As mãos eram que choravam. Os olhos não. Estavam cegos. Ou as lágrimas escorriam para dentro. Deve ter sido isso porque o Francis foi se enchendo de água, não se sabe se mijo. Nadou, nadou, nadou e quando saiu da água levou um de direita do nascente, esgotando suas apulhetas. Cruzou as pernas. Bebeu um pouco do cantil de um serafim desmaiado até então. Este, vendo seu líquido roubado pelo sedento Gross, ofendeu-se e foi embora. Com ele todas as tintas e todo o gabinete. Ficou um deserto enorme. Não de areia. De brancura. Pra todos os lados, branco. O viado do serafim levou as formas, os ângulos. Levou as dimensões. Francis Gross olhou para os pés e quase teve um infarto ao constatar sua abominável bidimensionalidade. Bidimensional do meio do nada. Estava com muito medo de perder mais uma dimensão e vagar unidimensional pelo perturbante branco-vazio. Ao longe, do branco longínquo, desfocando-se no infinito, uma mancha escura vai ganhando volume diante dos olhos de Gross. Tá chegando. Uma mão gigante. Cada vez maior. O anel não mente. É a mão do chefe. Ele está muito bravo, com a bidimensionalidade de Gross e com o fato de ser ele mesmo o próprio artigo. Então, um artigo reprovado. Não é o melhor artigo já escrito. O chefe fecha a mão e destrói o branco, sobre o qual se sustentava o mundo. O mundo desaba. Francis cola o paletó no mural que agora é e vai pra casa jantar com a mulher, que o ama. Não tinha carne.

Boa noite.

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