Havia, em terras longínquas e incautas, uma pacata tribo de Sarneys. Todos, ainda que embrejados numa planície movediçosa, permaneciam limpos, também incautos. Ainda que pulassem FURTIvamente pra lá e pra cá, não havia rebuliço que manchasse suas peles, pois não se inventou OMO que desse conta de irremediável desastre, portanto, adquiriram o dom naturalmente. Aí o Sarneys adoravam. Coachavam regurgitantes. Arrotavam moscas discursivas, vírgulas besourentas e bafejavam fedidas. Quando o mais velho, o mais Sarney de todos, exibia suas coxas verdes amolfadadas de gordurinhas trêmulas, a sarneyzada ia à loucura, extendendo suas línguas virulentas e sedentas na direção do orifício do Sarney véio. O Sarney véio ria, ria… Um girino lhe lambia…
Num belo e tolo dia, o céu sobre a tribo dos Sarneys começou a se mover, criando formas aleatórias e assustadoras. Junto, a temperatura subia, desesperada, mas sem cair do salto, os degraus do termômetro. Céu borbulhando, parecia querer derreter. A nuvens escaldantes. Os Sarneys, pobrezinhos, saltavam dislexos, desarmoniando o eterno canto sinfônico de suas vozes roucas. Tinham agora vozes quase humanas. Em verdade verdadeira, parecia bastante com voz de porco. O anil-celeste tornou-se quebradiço. E pouco a pouco foi esfarelando, num espetáculo bonito, acalmando os Sarneys, que viam flocos descendo dos ares em câmera lenta, sem nunca chegarem ao chão. Não demorou um Sarney do sanatório dizer: “é neve seca!” Vinha tão devagarzinha que deu tempo dos Sarneys entenderem o fenômeno como bom agouro, dançarem de anfibilidades dadas e festejarem o milagre vindo do firmamento. Às exatas duas da manhã, quando o concerto se encontrava em pleno auge, ecoando as notas nos ermos do brejo da tribo, o primeiro grão da neve seca chegou à terra. Ou melhor, às escápulas de um dos Sarneys. Ou melhor, nas costas do Sarney véio. Todos pasmaram. O floco escolhera onde cair. O Sarneyzão meteu-se a olhar a multidão com pupilas enormes, e com inédito furor bradou um coaxado de incrível dor, que acordou todos os Sarneys mortos. A neve seca caiu então sobre todos os Sarneys: mortos e vivos. Os Sarneys caíram então todos mortos ou mortos de novo na lama do brejo. A tal chuva sagrada era sal. E os Sarneys queimaram bem.