@joze_caozinho

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O FORMANDO PROMETEU

Em Os Artigos Nefastos, E3731pm03200937 UTC03 às 13:07

(Esse discurso contém, mesmo que não explicitamente, homenagens aos pais, companheiros, funcionários, mestres, aos pero-no-mucho e, sobretudo, aos antes-fetos-paridos-nenéns colegas que ora abandonam os seios da mãe USP.)

 

Simplesmente Boa Noite.

 

E Prometeu, mito tão adorado, atrevido e bravo, desceu do carvalho ereto do Olimpo, fogo em punho, flamejante a alma. Zeus, como um pai chocado, naturalmente desesperou-se com o roubo e acorrentou Prometeu anos infinitos, dizem que uns 30 mil. Todavia, nos pergunte por quê. Por que Prometeu, mito tão adorado, atrevido e “bravo”, surrupiou o fogo, propriedade exclusiva dos deuses? O que queria esse imoral com a preciosa tocha? Nós respondemos: uma imoralidade ainda maior: homo sapiens. Sim! Prometeu nos moldou a fogo.

A historinha que acabamos de ouvir conta a saga simbólica de Prometeu, responsável pela criação de todos os animais e do homem. O fogo, em seu poder e audácia, quer dizer conhecimento, esse sim flamejante dessas almas humanas. O calor das palavras, o fervor da poesia, a temperatura fatal da bomba atômica, o fondue de chocolate, acalentador das noites mais românticas. O isqueiro, invenção maravilhosa, resumindo o Fiat Lux, primeiro ato de Deus na criação do mundo, a um movimento dos nossos polegares opositores. Que macacos espertos… E levantá-lo no show de uma banda…  Está então inaugurada para essa espécie a curiosidade, as experiências absurdas, a fase oral do bebê, a Dolly e as escolas, os institutos, os colegiais, as colegiais, a Usp, a Eca e nós. E o fogo. A Academia, pira olímpica oficializada, é também cálice farto para nossa sede de ardor. Dá-se, então, a pirofagia. Comemos uma lamparina ali, beliscamos uma brasa acolá… Chamas com manteiga, por favor! Vez em outra uma fogueira enorme! Banquete intelectual! Sócrates daqui, Kant de lá… Os fogos de artifício vão dançando dentro da gente. O corpo em incêndio! Nero atacou suas convicções! Fogo nele, inquisição! Aula avante, roda falante.

Anos a esmo, ou quase, e fomos nos educando Phoenix, ave de fogo eterna, que sempre renasce das próprias cinzas. E agora, nova pergunta: qual é teu fogo? O que te deixa em brasa? Busca fora e dentro. É aí que está teu alimento, tua sorte, tua felicidade. Aí está teu Prometeu.

 

Crianças boas, crianças mais,

Nesse momento, todos entram pros anais.

Queima logo esse portfólio.

Rasga esse embrulho.

Como todos intuo:

 vai estrada longa,

vai sem ter recuo. 

 

Caminha agora brasa afora

Ria muito, se muito precisar, chora.

Se te barrarem, vai à forra

O dinheiro suado, vê se não torra.

Caia na real, que tudo caia por terra

Caso nada tenha sobrado, esperneia e berra.

Só não seja atroz

Mastiga bem o teu arroz

E não esquece do feijão,

do pão,

do pai,

da mãe,

do irmão.

Reparte teu fogo!

Se não dividires o perderás logo!

Reparte tua chama!

Entra brincando no jogo

Reparte tua vida!

Encara tua saída

Agora não tem mais múltipla escolha

Disserta teu destino, arquiteta tua própria ficção

Que a realidade não existe, é mera ilusão.

 

Boa noite.

 

(discurso do orador André Araújo – nº USP 4902494 – Artes Cênicas – Direção Teatral – andrearaujobrasil@hotmail.com)

À língua-melodia

Em Os Artigos Nefastos, E2331am03200923 UTC03 às 02:40

dedicado ao Broto.

Numa longinquidade possível, mesmo que muito remota, vive Gulliver VIII, descendente puro da curiosa relação entre o virtuoso Capitão Gulliver e um bibelô liliputiano. Digamos mais. Ele era o primeiro-ministro. A terra longínqua, Tucupank. Gulliver VIII, homem bom, de ares bufanescos, era devoto do Deus-da-Pele-Azul, entidade muito requisitada para causas transcendentais e temperos exóticos. Os dois costumavam se encontrar na madrugada, em geral entre escuras nuvens ou num formigueiro, onde conversavam por horas a fio. Teciam sobre as coisas do Olimpo e dos Planetas. Faziam brindes a Saturno e bebiam Vênus. Esbaldavam-se, o Deus-da-Pele-Azul e o Gulliver VIII. Todavia lembravam, apesar de embriagados e exauridos, da manhã iminente, quando deviam, sob a pena de acontecer o desconhecido, rapidamente retornar aos seus mundos: o Deus-da-Pele-Azul ascendia com 300 asas ao Olimpo e Gulliver VIII volvia à sua amada Tucupank em seu moicanã, espécie de Pégasus tukupankiano, salvo suas 3 patas, banhadas na prata.

Era esse mesmo o moicanã que Gulliver VIII conduzia pelas pradarias de seu solo quando viu um enorme túnel cravado com muito bela arquitetura no pé de uma montanha, a qual  ele tinha certeza já ter visto centenas de vezes, mas sem túnel. Determinado, galopovoou 4 milhas em 4 segundos, chegando por fim à entrada do grande portal decorado com motivos rupestres. Lá, o recorrente moicanã, cujo nome era Tito, refugou decidido. Gulliver VIII persistiu, fincando suas rosetas de 42 pontas na virilha da perna de trás do preguiçoso animal. De nada adiantou. Tito esperneava, relinchava, chorava, cantava, mas não entrava no túnel. O primeiro pensamento do descaronado herói , desmunido da velocidade do seu moicanã, foi dar meia volta. Depois  lhe ocorreu que não há caminho na vida que não leve a outro lugar, e resolveu entrar passo-a-passo, rumando para o interior do túnel. As paredes, que já eram belas lá na entrada, exibiam espetáculos de irrealidade, criando espirais com cores nunca dantes vista, trechos desfocados, quadros de Renoir e Goya, côncavos e convexos de gradação incauculável. A cada sonho, menos luz. A cada forma, menos espaço. Gulliver VIII parecia já não caber no túnel, por isso lembrou que há muito não visitava sua mãe em Lilipute, mas logo o pensamento parou. Gélidas veias. É ininteligível a sensação simultânea de tanto frio e tanto calor . Além do silêncio. Não havia jamais presenciado um silêncio tão puro, tão perfeito. Súbito, um gemido corta o gelo e o vapor, soprando de novo vida no tímpano de Gulliver VIII. A escuridão bate em retirada e de repente tudo fica sépia. Tudo menos o proferidor do gemido, destacando-se do resto do mundo inteiro com seu azul único. O Deus-da-Pele-Azul chorava copiosamente.

Tudo ficou, de um milênio pro outro, claro para Gulliver VIII. Inclinou-se em lótus e sussurrou com toda honestidade ao Deus-da-Pele-Azul. Eu te amo. No milésimo seguinte, todas as cores, inclusive as que vemos apenas dormindo, brotaram do ventre azul-celeste, e ali foi dada à Gulliver VIII a visão de todas as maravilhas intocadas por qualquer espécie material. Testemunhou uma beleza descomunal, jamais atingida por criatura feita de átomos. Num momento quedou-se desesperado, certo de que nem mesmo os trilhos da eternidade seriam capazes de achar palavra ou imagem à altura de tal obra. Tanta massa sublime foi se comprimindo, até mudar de estado. Virou vapor. Depois líquido. Aí sólido e em seguida os três ao mesmo tempo. Complexidade mestra.  Forjou-se naquele túnel a criatura mais maravilhosa que já pôde existir nos mundos conhecidos pela geografia dos nossos deuses. Gulliver VIII, refazendo-se em amor a cada respiração, comemorava extasiado seu presente. Beijava-lhe as pessegosas maçãs do rosto e as cerejas de seus lábios, incrédulo do sabor melódico daquela língua. Já não havia mais o Deus-da-Pele-Azul, diluído no frasco do feromônio dela. Ele lhe mostrou o dia. Ela lhe deu a noite. Ainda bailam ,sol e lua, embevecidos do fulgor flamejante de suas almas fundidas.

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